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Vida Privada
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Gênese

Rubens Dultra - 23.08.2008 -

Todo mundo, uma vez ou outra na vida, já se perguntou como é que nasce uma piada. Esta é uma dúvida que eu não posso ajudar a solucionar. Algumas pessoas também se perguntam como é que nasce uma gíria. É aí que eu posso ser útil.

Nos idos de 1979, eu já contava dezoito anos, mas não tinha um carro. Durante toda a adolescência, sonhava completar os dezoito para aprender a dirigir e dar umas voltas com o Chevette da família nos fins de semana, mas, por algum motivo, havia oito meses que eu já estava na minha primeira maioridade (a segunda seria aos vinte e um) e ainda não tinha me matriculado na auto-escola.

Na época, eu tinha um companheiro inseparável de boemia, o Ronaldo. Vivíamos nas noites do Bexiga, o bairro noturno da moda naqueles tempos. Barzinhos, saraus, cineclubes, feiras de artes e antiguidades, festas na rua - tudo acontecia por lá. Nós, cheios de hormônios implorando por atividade, nos esgueirávamos pelas entranhas do bairro, procurando lugares com muitas garotas e poucos homens. Não raramente, estas saídas começavam na sexta-feira à noite e só terminavam na segunda de manhã.

Às vezes eu ando sem nunca chegar,
Porque eu não quero ir à nenhum lugar.
Eu ando à noite, ando por andar, até que amanheça.

A casa do Ronaldo era o ponto de encontro de uma grande turma que tinha pequenos subgrupos (grande mesmo - num piquenique que reunimos quase todo mundo, foram mais de setenta pessoas). Era lá onde todos se encontravam nas sextas-feiras e se dividiam em turmas menores para fazerem programas de acordo com seus interesses. Obviamente, havia algumas garotas ali que me interessavam. Antes de sair, batíamos papo, jogávamos, bebíamos um pouco, tocávamos violão e cantávamos. Eu era um dos violeiros.

Aprendi a tocar violão aos quinze anos. Muito antes, minha mãe havia tentado que eu e meu irmão aprendêssemos música com um professor particular, mas não deu certo - em dois meses, desistimos. Aprendi mais tarde, cabulando as aulas do ginásio com uma turma de colegas músicos, motivado pela popularidade que tocar um instrumento oferecia. Infelizmente, nunca pude cantar - minha voz é quase fanhosa e não tem extensão nem para cantar o “Samba de Uma Nota Só”. Mas eu podia compor, o que compensava um pouco o meu fraco desempenho vocal. Compunha músicas sobre qualquer coisa que me desse na telha.

Certa vez, fiz uma canção que falava sobre o prazer e a liberdade que eu e o Ronaldo sentíamos de caminhar a pé nas madrugadas de São Paulo. A música, denominada “Trevas Urbanas”, acabou se tornando muito popular na nossa turma. Era uma balada simples, de melodia fácil e letra ingênua, embalada pelos acordes de sol e dó maiores. Uma música boba, feita por um garoto de 18 anos dos anos setenta. Era comum pedirem para eu tocá-la para que todos cantassem.

- “Toca aquela balada, Rubão!”

Gosto de olhar os prédios a luzir na imensidão,
Gosto de olhar o luar embaçado de poluição.
Há guardas noturnos com medo de achar, correndo, um ladrão.
Coisas que a noite procura ocultar da população.

A canção tornou-se emblemática para mim e para o Ronaldo. Cantávamos à capela em várias ocasiões durante a noite: bêbados, voltando para a casa, ou quando identificávamos uma determinada situação com algum trecho da música. Não demorou muito e substituímos o termo “sair para a noite” por “sair para a balada“. O termo pegou. Em breve, a turma toda utilizava “balada” ao se referir a qualquer programa noturno.

Ao ouvir a molecada hoje em dia falando “balada“, ver o termo utilizado na TV ou em qualquer outra situação, sinto algo estranho, como se tivesse sido testemunha ocular anônima de um importante evento histórico: a gênese de uma gíria. Perdi o contato com o Ronaldo por décadas e recentemente o encontrei pelo Orkut. Querendo saber se ele se recordava da história, perguntei-lhe sobre o assunto inevitável. Recebi dele a seguinte resposta:

- “Pois é, cara! A gente devia ter patenteado! A gente ia estar milionário!”

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