O Cocô
Rubens Dultra - 26.09.2008 -Todo mundo tem uma identidade secreta. Todo mundo, não adianta negar. Eu tenho, você tem, seus pais têm, o papa tem. E a coisa começa cedo.
A primeira lembrança que eu tenho de me esconder sob um manto anônimo, ainda é da infância, apertando o botão da campainha da casa dos vizinhos e saindo correndo. Às vezes, nem corria! Fingia que estava andando por ali e olhava com expressão de censura para um dos lados da rua, como que reprovando o moleque sem educação que tinha feito aquela traquinagem e disparado para longe. Assim eu podia ver a reação ranzinza do dono (ou, mais freqüentemente, da dona) da casa.
De vez em quando somos pegos em flagrante, desmascarados, como um super-herói humilhado. E, pior ainda, há casos em que somos obrigados a confessar, expondo nossa figura à execração pública. Foi o que aconteceu ao meu irmão quando ele tinha cerca de dez anos. O pobrezinho recebeu a mesada (quase nada, como é adequado a uma criança desta idade) e correu para a loja de mágicas. O lugar, além dos truques de prestidigitação, oferecia aqueles brinquedos sacanas e irresistíveis, que as pessoas geralmente acham de mau gosto, mas, ao perceber alguém prestes a ser vítima de um destes, não arredam pé até ver o infeliz ser feito de bobo. Entre os trotes à venda, havia o clássico cocô de papel machê. Praticamente, toda a mesada do meu irmãozinho foi trocada por aquela merda que, apesar de não ter cheiro, tinha uma aparência úmida bem desagradável.
A primeira vítima escolhida foi a casa das quatro irmãs bonitonas que moravam perto. Toda a turma da rua se escondeu atrás de um carro estacionado, que oferecia uma visão de camarote ao evento que se seguiria. Meu irmão colocou com cuidado o monolito escatológico bem em frente à porta da casa, tocou a campainha e veio correndo se juntar a nós, no camarote. Dona Nair, a mãe das meninas, abriu cautelosamente a janelinha da porta (nos idos de 1973, isto era precaução de segurança suficiente). Olhou para os lados, procurando quem havia tocado a campainha e quando, resignada, já ia fechar a janelinha, percebeu o impávido colosso. Encarou a estatueta espiralada brilhante por uns dez segundos, como se pensasse no que fazer, deixou a janelinha aberta e entrou.
A reação dela foi bem menor do que esperávamos - queríamos vê-la praguejando, com uma cara de nojo, sei lá! Mas o fato dela ter deixado a janelinha aberta, dava a impressão de que a história ainda não havia terminado. Meu irmão estava receoso de ir lá e pegar o seu cocô, pois a janelinha sugeria que ela poderia estar de tocaia, espiando do lado de dentro. Esperamos aproximadamente eternos dois minutos, até o meu irmão decidir que não havia mais perigo. Justamente quando ele pensou em se mexer para buscar o seu tesouro marrom, a dona Nair volta. Com uma vassoura, uma pá, uma folha de jornal e um balde cheio de areia.
A paciente senhora virou a areia sobre a merda de mentira. Curvou-se com a pá e a vassoura, recolheu tudo, depositou sobre o jornal, fez um embrulho, colocou no balde e voltou para dentro. Saiu novamente com a vassoura e o mesmo balde, desta vez com água e sabão. Despejou o conteúdo sobre o local, esfregou um pouco com a vassoura e se recolheu.
Nós, no camarote, nos contorcíamos para não rir alto, menos o meu irmão, que, com a cara amuada, ia vendo o seu investimento sendo tragado pelo lixo logo na primeira vez que fora usado.
Os quinze minutos que se seguiram foram uma importante lição para o meu irmão e para qualquer um da nossa turma que tivesse a rara habilidade de aprender com a experiência alheia. O coitado precisava tomar uma decisão. Ou mandava a merda à merda (o lixeiro passaria na rua ainda naquela tarde), ou tomava uma atitude. E foi o que ele fez.
Com a maior cara de pau do mundo, expressão humilde e arrependida, tocou novamente a campainha da casa das meninas. Dona Nair abriu a janelinha.
- Oi, Cacá. As meninas estão na escola.
- Eu sei, dona Nair, não é isso. Sabe aquele cocô que a senhora guardou? É meu. A senhora pode me devolver?
Ele estava ali, exposto a qualquer reação da dona Nair. Ela mandou que ele esperasse, entrou e voltou com o embrulho de jornal. Ao entregá-lo ao meu irmão, com a sua sabedoria, percebeu que o menino já estava sendo castigado suficientemente, apenas pela situação em que havia se metido. Deu-lhe uma pequena bronca, afinal não podia deixar a arte passar em branco.
E foi assim, implorando pelo seu cocô, que se desintegrou a máscara de Zorro do meu irmão, junto com a sua dignidade. Foi um choque terrível e demorou quase duas horas para ele superar o trauma e voltar a ser a mesma pessoa que era antigamente.

4 Comentários, Comentar ou Pingar
Tatau
Hehehe muito bom. Coitado do seu irmão… Espero que ele tenha superado o trauma
November 4, 2008
André HP
hahaha, demais…
Essa de tocar a campainha todos fizeram!
Forte abraço!
PS: mandei um e-mail para o contato@taturana.com.br.
November 22, 2008
Tali
hahaha adorei o texto!
com certeza eu ia mandar o coco ir a merda, jamais iria lá pedir ele de volta rs!
December 12, 2008
maria coco
muito coco
December 20, 2008
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