Sabe quando dizem que se você explicar uma piada, ela fica sem graça? Não é culpa minha, mas vou explicar.
Há uns dias o Chico Barney me deu uma sugestão de parodiar os vídeos da promoção Redondo é Rir da Vida. É uma promoção que tem como mote aquele lance de “um dia a gente vai rir disso”, que é o que dizem quando uma história é bizarra hoje, mas amanhã é motivo de piada. Vejam os dois vídeos que convocam o público a participar da campanha:
Legal, né? Eu deixo você julgar.
A ideia do Chico era que eu contasse piadas sobra alcoolismo. Dei uma distorcida no conceito e resolvi fazer só histórias trágicas contadas como se fossem super engraçadas. Sem “punch lines”, só “punchs” mesmo. Escrevi o roteiro e gravei no dia seguinte, dirigido por Erik Gustavo. Eu tava muito animado sobre o projeto.
Logo já estava na Internet. Blogs divulgaram, entusiasmados com a idéia. A coisa correu ferozmente no Twitter. Todo mundo riu.
Até a manhã de segunda, quando chegou um e-mail muito legal nas nossas caixas de entrada: um pedido gentil para tirarmos o vídeo do ar. Alegam que usamos indevidamente a marca Skol e o site da campanha. Obedecemos e deletamos.
Olha só, meu nome tá no SPC. Nome de todo mundo na minha casa - exceto minha irmã de 4 anos - também está. O Erik eu não sei como tá, mas outro dia vi ele dizendo que ia costurar um tênis. A gente não tem dinheiro. Eu tô perigando parar de estudar caso eu perca minha bolsa na faculdade - o que tá próximo. Fim de mês, a gente tá sempre duro aqui. Meus amigos pensam que porque eu trabalho para a MTV, tô acendendo charuto com nota de 100, mas boa parte do meu primeiro pagamento, eu dei para minha mãe comprar remédios e coisas para uma obra de emergência no banheiro aqui em casa. A VIDA TÁ DURA. Não tô chorando. Tô deixando claro o motivo pelo qual falei NA HORA pro Erik deletar nossa brincadeira. Não tenho tempo, força, nem recursos para brigar com ninguém. No primeiro e-mail que me mandam, eu deleto tudo sem nem verificar se é trote. Se você conseguiu ler esse post aqui, considere-se sortudo. Podem pedir para que eu o delete já já.
Mas voltando. Pediram para a gente deletar nossa brincadeira. Uma brincadeira, é tudo. Não tenho nada contra os comediantes nem contra a Skol. Já vi o programa e shows de ambos - gosto do stand-up do Danilo e já convidei o Rafinha para participar de um programa meu. Bebo Skol desde, let’s say, 18 anos. Fiz uma piada com uma campanha que é tola. As piadas são sem graça, a idéia é idiota. Pegaram o espírito livre, pegaram a arte que pratico e defendo (stand up) e fizeram aquilo que os publicitários fazem como ninguém: transformam algo “legal e jovem” em algo sem personalidade e chato.
Já dizia o Frank Jorge: se tu não aguentas o calor, por que ficas na cozinha? Fez campanha que abre espaço para interagirem e só aceita se interagirem do SEU JEITO? Isso não é legal, nem jovem.
E naquelas… eu vi algumas pessoas falando: “Stand up é uma merda mesmo, olha isso!” quando viram esses vídeos. Então eu, como escritor e comediante stand up posso pedir para deletarem os vídeos do Rafinha e do Danilo do ar, pela agência ter feito um uso indevido da minha arte?
Eis aqui uma nova versão do vídeo, CENSURADA, sem QUALQUER MENÇÃO à Skol ou sua promoção. A coisa perde um pouco da graça, porque a semelhança de visual com o original dava um tom único, especial - é assim que eu valorizo comédia. Mas a culpa não é minha. Eu trago a graça, vem o homem grande e tira. Se eu tiro a graça da mão dele e dou para vocês de novo, irmão, ele me tira a graça, as calças e os 16 reais que eu tenho na minha carteira.
Mas tá tranquilo, eu vou zoar, o clima é de partida. Recebi apoio do público, e de várias pessoas que admiro - inclusive publicitários, pois há os bacanas. Hoje (dia 10 de março) sai uma notinha no Jornal do Brasil sobre o caso. Compre aê.
É curioso pensar que meu vídeo foi mais divulgado do que os vídeos originais da campanha. E que fui parar no jornal justamente por terem pedido para eu deletar meu vídeo. É só… engraçado.
Sabe, hoje eu tô meio puto com essa história. Mas um dia… um dia eu ainda vou rir muito disso.
Obrigado pelo apoio,
Ronald Rios
UPDATE:
Nota na edição de 10 de março de 2009 do Jornal do Brasil, na coluna da Heloisa Tolipan:
















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