Jesus, me chicoteia!

Aos veados que pensam que são viados

Sempre que eu escrevo veado aqui no blog — no sentido de bicha, gay, pederasta, homossexual, fruta etc. — algum outro sinônimo vem me corrigir, dizendo que o certo é viado. Nego tem tanta certeza do que ouviu dizer que nem se dá ao trabalho de procurar no dicionário. Veados do mundo todo, anotem aí a definição do Houaiss:

veado

Datação
sXIV cf. FichIVPM

Acepções
? substantivo masculino
1    Rubrica: mastozoologia.
design. comum a diversos mamíferos ruminantes da fam. do cervídeos, de coloração ger. amarronzada, cornos ramificados ou simples, presentes apenas nos machos, pata com quatro dedos, pernas longas e cauda curta; suaçu
2    Derivação: por metonímia. Rubrica: alimentação.
a carne do veado us. na culinária
3    Rubrica: ludologia. Regionalismo: Brasil.
no jogo do bicho, o 24º grupo, que corresponde ao número do veado (o 24) e abrange as dezenas, 93, 94, 95 e 96
4    Derivação: sentido figurado (da acp. 1). Regionalismo: Brasil. Uso: tabuísmo.
homossexual do sexo masculino

viado

Datação
1340 cf. Eluc

Acepções
? adjetivo e substantivo masculino
Rubrica: indústria têxtil. Diacronismo: antigo.
diz-se de ou tecido de lã, com riscas ou veios

Etimologia
orig.obsc., JM se pergunta sobre a possibilidade de associar o voc. com via,ae ‘caminho, via; trajeto, viagem’ e Figueiredo o relaciona com o lat. vena,ae ‘veia; veio’ por intermédio de um lat.vulg. *venatum (< lat. vena + -atus) ‘dotado de veia ou veios’

Ohrwurm

O inferno começou na noite da última sexta-feira.

Eu moro no terceiro andar de um prédio da Vieira de Carvalho, reduto gay no centro de São Paulo. Não me importo com os veados — são tranqüilos, engraçados e não mexem com minha mulé. Mas na sexta-feira eu bem queria matar o pederasta desgraçado que parou o carro sob minha janela com o som num volume absurdo. A música que ele (e todo mundo) ouvia:

Solteira, sim
Sozinha, nunca
Sou Garota Melancia
E rebolo a minha bun-da!

Desde então a desgraça da música não sai da minha cabeça. Para piorar, fico pensando no pai de Andressa Soares, a Mulher Melancia. Procurei a música no YouTube; encontrei um trecho do programa da Luciana Gimenez. A Melancia dançava e esfregava a bunda na lente da câmera. Imaginem o desgosto do velho ao ver a filha na TV, cantando isso e rebolando a bunda nas quarenta e duas polegadas da tela de LCD (que ele só tem porque a filha rebola a bunda na TV).

Só matando.

Idéia fixa

Bom, reduzi minhas opções, graças a duas pessoas conhecidas que estão vendendo carros por um preço que eu poderei pagar: o pai de uma amiga e uma leitora muito querida deste blog.

Só que tem uns detalhes aí. Então torçam para dar tudo certo, que depois eu deixo todo mundo dar uma voltinha no meu carro velho novo.

E desculpem a monotonia de assunto. Maldita ansiedade.

Dois links nadaver

Resultado

Uau! 90 comentários para me ajudar a escolher um carro velho. Tive o trabalho de contar as opiniões positivas e negativas para cada modelo, e classificá-los de acordo com o saldo. Até agora, Corsa (+6), Monza (+5), Corolla (+4) e Subaru (+4) são os melhores. Os piores são o Daewoo Espero (-3), o Hyundai Accent (0) e, para minha surpresa, o Escort (também -3). Destaques para dois que pontuaram bem e nem estavam na lista, Xsara (+3) e Santana (+3). Outros que também não estavam na lista pontuaram +1: Kadett, Civic, Astra/Vectra importados, Verona, Renault 19 RN e Renault Mégane.

Resumindo, complicou mais ainda: consegui descartar os coreanos e o Escort de minha lista; em compensação, entraram outros sete modelos na parada. Muito obrigado, queridos leitores.

Carro velho

E aí que este mês eu termino de pagar o Corsa (aplausos!), e já vou vender o coitadinho. Tenho contas a equilibrar, e calculo que vão me sobrar uns 10 ou 12 mil reais. Como quero evitar entrar em outro financiamento, quero comprar outro carro à vista. Só que não quero carroça: me acostumei com travas elétricas, direção hidráulica, a veadagem toda; me cansei de motor 1.0. Minhas opções, portanto, se reduzem a carros com mais de dez anos de fabricação, a maioria importada. Já sei das restrições: seguro, só contra terceiros. E não sei o que é mais difícil: encontrar peças ou vender o danado. Mas não me importo de me casar com um carro, desde que ele preste — e seja de boa família. E só uso carro nos fins de semana. Então fiz uma lista de possíveis candidatos a ocupar a vaga em minha garagem, ou melhor, no estacionamento da Rua Aurora:

Esse negócio está um inferno. A marida não agüenta mais me ouvir falar em carro; justo eu que nunca liguei para isso. Cada dia eu chego em casa decidido por um modelo; ela quer me jogar pela janela.

Minha lista tinha também o Ford Taurus, mas o motor 3.8 bebe mais do que corno inconformado. O Jeep Willys é o grande sonho de infância, mas é impraticável como único carro: bebe mais do que o Taurus, anda muito menos, é desconfortável e coisa e tal. Ainda vou ter o meu, mas só quando tiver condições de sustentar dois carros. Quanto aos coreanos, não sei se prestam mesmo. Os donos dizem que sim, mas se fosse verdade só tinha carro coreano no Bom Retiro. Não é o que acontece: coreanos e judeus parecem gostar de carros japoneses (os bolivianos dirigem máquinas de costura).

Porque estou contando isso tudo: é muito difícil decidir tendo por base só os fóruns, clubes online e comunidades do Orkut. Cada proprietário diz que seu carro é o melhor do mundo, sem apresentar argumentos. Os detratores do carro fazem a mesma coisa: “Esse carro é um lixo porque é velho/importado/desvalorizado/invendável”, mas não se esforçam para provar seu ponto de vista. Bom, então o negócio é apelar para meus distintos leitores. Só aceito opinião de quem tenha um desses carros, ou conviva com alguém que tenha. E não adianta vir com “Ah, se eu fosse você eu não entrava nessa roubada”, porque eu já decidi comprar um carro velho, barato e ficar alguns anos sem entrar em financiamento.

Reporterzinho de merda

Nesses três anos de profissão, nada me assusta mais do que cobrir eventos. Enquanto estou na redação, estou bem. A redação é um ambiente amigável, com gente que eu conheço e onde eu faço o que gosto de verdade: escrever. Só que ser repórter não é só escrever: é apurar, entrevistar, investigar, sondar, blablablá. Quando saio para cobrir eventos — ainda mais eventos importantes, que duram vários dias e tal — me sinto o último dos manés. Olho para os colegas e todos eles têm suas fontes, informações exclusivas, histórias para contar. Quanto a mim, ando pelo evento, assisto a painéis e palestras, visito a exposição, e não consigo ver nada de interessante. Os mesmos palestrantes repetem os mesmos assuntos para as mesmas pessoas. Nos painéis de debates, cada participante concorda alegremente com o que os outros falam. Nos estandes, duas, três, oito empresas demonstram produtos idênticos, apresentando-os como exclusividades magníficas. Eu não entendo.

E aí está o grande problema: não tenho o desembaraço necessário para abordar pessoas, apresentar-me, puxar assunto. Sou reservado com gente que não conheço, o que não é aconselhável para quem se propõe a ser um repórter. Então observo, escuto conversas, presto a maior atenção e, se achar que vale a pena, me obrigo a chegar perto e dizer, “Oi, sou repórter, queria conversar com você sobre esse negócio aí.” Só que eu raramente acho que vale a pena.

Minha impressão é que não tem nada de novo acontecendo, que “inovação” é só uma palavra que já está saindo de moda, que certo mesmo estava o autor do Eclesiastes. Mas não é possível. Estou numa sala de imprensa cheia de jornalistas, ao lado há outra sala cheia de assessores de imprensa. Essa gente toda não ia convergir para um mesmo lugar se não houvesse nada de novo acontecendo.

Ia?

Gente, que coisa horrível, não?

O povo clama para que eu me manifeste sobre o seqüestro de Santo André. E eu nem sabia que tinham seqüestrado o apóstolo…

Tá, mentira. Ninguém me perguntou nada. Mas digo mesmo assim: consegui passar a semana inteira docemente ignorante sobre o que acontecia num buraco qualquer de uma cidade-dormitório. Outras coisas aconteciam em outros buracos de outras cidades-dormitório, e é claro que não me interessavam. Então por que eu daria atenção a esse caso específico? Só porque a imprensa ficou falando nisso?

Bom, não consegui manter minha total ignorância, infelizmente. Matei aula na sexta-feira porque já sabia qual seria o tema: há anos os professores de jornalismo se desesperam em busca de um assunto diferente dos casos Escola Base e Bar Bodega. Esse novo caso de trapalhada midiática deve ter sido um alívio para eles. Atenção: se você pretende estudar jornalismo algum dia, prepare-se para debater o seqüestro de Santo André à exaustão.

De resto, minhas opiniões permanecem mais ou menos as mesmas desse outro post. E o rato de Green Mile ainda me comove mais.

Mão no peito

No começo de nossa vida adulta, quando nos conhecemos, Daniela e eu tínhamos empregos ridículos. Eu era o moleque de informática de um colégio de padres. Mesmo assim, ela ganhava: ela tinha de usar uniforme no trabalho. Eu achava isso triste. Até um dia em que eu tirei folga (ou talvez estivesse desempregado, sei lá) e fui almoçar com ela. Na porta do prédio, ficava vendo as colegas dela que saíam para o almoço. Murchinhas em seus uniformes, pareciam todas o que eram mesmo: recepcionistas, telefonistas.

Então saiu Daniela lá de dentro, andando toda empinada, autoconfiante, olhando firme para a frente. Ela parecia pairar sobre as colegas, superior a elas. No meio das recepcionistas e telefonistas, ela parecia uma aeromoça.

Corta para algum ponto lá pelo meio de 2007, ano maldito. Daniela estava no hospital pela segunda ou terceira vez depois de começar a quimioterapia. A medula dela não gostava dos remédios, os leucócitos sumiam, ela precisava ser internada. Nesse dia ela ia precisar de uma transfusão de sangue. Liguei para o hospital; ela não queria falar com ninguém. Falei com a mãe dela, já ia desligando quando ela pegou o telefone. Demorei para reconhecer a voz, de tão fraca e sem expressão. Foi tão ruim que, mesmo sabendo que ela não queria ver ninguém, eu precisei ir até o hospital.

Quando cheguei, encontrei minha amiga pálida, deprimida, com olheiras. Semanas antes eu tinha ido ao mesmo hospital para cortar o cabelo dela, que começava a cair. Nessa ocasião ela estava bem humorada: aceitou numa boa a máquina raspando sua cabeça e depois ainda fez uma dancinha na frente do espelho — que eu não vi, só deduzi. Ela ficou bonita careca, e isso não a fez perder a pose de aeromoça.

Nessa outra ocasião era tudo diferente. Quem dera ela parecesse uma recepcionista. Ela parecia pequenininha naquela cama, assustada. Ela estava com medo de morrer; estávamos todo com medo de que ela morresse. Eu passei um tempo olhando para ela, procurando algo positivo para dizer. Reparei na boca inchada e falei algo sobre ela estar parecida com a Angelina Jolie. Fui embora logo, ela não estava para conversa.

Chorei no carro voltando pra casa, foi ridículo.

Bom, tudo já passou, Daniela está bem, com dois peitos e vários cabelos. Ela fez até um blog para contar sua história — se você ainda não leu, você é um mané. E agora ela está apoiando a campanha Outubro Rosa. Eu apóio também:

Ok, não sou bem uma blogueira, mas não se prendam a essa irrelevância. O negócio é que eu quero todas as minhas leitoras saudáveis e felizes, como aeromoças espevitadas. Então, minhas queridas, façam o favor de examinar esses peitos aí. Se minha marida não se opuser, eu posso ajudá-las com isso.

Manchete bombástica

Página 1 de 45512345»...Última »